A cultura do endividamento

17 jul A cultura do endividamento

Embora o endividamento seja considerado um fenômeno relativamente novo em nossa sociedade, o significativo aumento de pessoas endividadas propiciou o surgimento de alguns estudos sobre a cultura do endividamento. Dívidas fazem parte de um contexto econômico geral e dependem de diversas ações internacionais, nacionais, regionais e, inclusive, familiares. A complexidade do tema oferece diversas possibilidades de pesquisas e análises, mas chama-se atenção especialmente para o endividamento pessoal. Considerando que as escolhas financeiras não são regidas apenas pela racionalidade, o endividamento pessoal é visto tanto como efeito de uma gestão financeira equivocada, como resultado de motivações emocionais.

Muitas decisões financeiras são tomadas por avaliações errôneas, por impulso, por compulsão e, principalmente, pelo significado que determinados produtos adquiridos têm para cada um. Da compra de um sapato à aquisição de um iate, o status, o poder, a auto-estima e a imagem que se quer passar para os outros são alguns dos motivadores – conscientes e/ou inconscientes – que determinam as escolhas das pessoas no dia-a-dia. Somente a partir do cruzamento das bases teóricas da economia e das motivações psíquicas, torna-se possível analisar e responder, mais adequadamente, a algumas das inúmeras questões surgidas a partir do aparecimento da cultura do endividamento.

Na contramão do endividamento, encontra-se o investimento. Investir não é exclusivamente empregar capital em um negócio, correspondendo, igualmente, a um deslocamento de sentimentos e energia. É desse modo que as pessoas constroem e regem as suas vidas, os seus portfólios financeiros e emocionais.  Influenciadas por expectativas, frustrações, sonhos, desejos e pelo que imaginam que os outros pensam a seu respeito, na maior parte do tempo não percebem as reais conseqüências dos seus atos.

O endividamento financeiro, muitas vezes, é consequência do chamado endividamento emocional. Devedoras de uma imagem melhor, de um corpo perfeito, de uma inteligência maior ou de uma dedicação mais intensa aos filhos, as pessoas consomem produtos na tentativa de suprir uma falta. Falta esta que angustia, porque nunca é totalmente preenchida. Mas como lidar com isso numa sociedade que exige e promove um consumo tão acelerado e vigoroso? Receitas ou manuais não são muito eficientes nesses casos, mas educação e análise podem ser armas eficazes nessa batalha.

Quanto maiores forem o conhecimento na área financeira, a capacidade de crítica frente ao consumo e a análise das emoções que interferem na tomada de decisões, mais aumentam as possibilidades de se romper com a cultura do endividamento e de se obterem investimentos saudáveis, tanto financeiros quanto emocionais.

Márcia Tolotti

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