Felicidade?

09 dez Felicidade?

Texto inspirado a partir da leitura do livro A felicidade paradoxal de Gilles Lipovetksky

A civilização da “felicidade”   – nossa mentalidade atual –  é insana e injusta. Enquanto alguns conseguem encontrar felicidade rasa, passageira, adquirida em qualquer estabelecimento comercial, a maioria vive a sensação de impotência, baixa estima, degradação social e moral por não “ter a competência” em adquirir o que o mercado propaga como o mais legítimo merecimento do ser humano.

A pobreza material é vivida como sentimento de fracasso pelas classes com menor poder aquisitivo e não podemos deixar de concordar com o pensador Lipovetsky quando chama isso de violência da cultura da felicidade. Acreditamos que o desemprego, a falta de recursos a impossibilidade de proporcionar uma vida melhor para os filhos, é “culpa” de cada um. Individualizamos um problema econômico, social, político e ético. Esquecemos que quanto maior o conforto e a capacidade de alguns, maior o sentimento de “ser menos” e ter menos de muitos outros.

Há possibilidade de equilíbrio?

Não, claro que não. Todos, não podem ter tudo, é inviável. O mercado se sustenta – em boa medida – pela diferença do desempenho pessoal. A tirania do desempenho que submete cada um de nós a superação constante dos limites e a sair da zona de conforto, ininterruptamente, é o modelo atual da exploração das potencialidades. Mas o potencial tem a ver com condições de alimentação, estimulação, convívio social e experiências desde a infância. Daí as diferenças de condições materiais, intelectuais e emocionais determinarem as competências na vida adulta, profissional. Não significa que a distância entre as condições de uma pessoa e outra sejam sempre enormes em todas as sociedades, mas nos Brasis é assim que funciona (a antropologia demonstra a origem e os motivos pelos quais vivemos em um país dividido: arcaico e moderno, pobre e rico, inteligente e “burro” e, como as diferenças de recursos impedem uma equidade razoável).

Por que cansa pensar nisso tudo?

Porque sabemos que vivemos uma ditadura. O desempenho, por exemplo, profissional é “injusto” desde a base, desde o ponto de partida e ao mesmo tempo, somos impelidos a negar essa realidade, nos iludindo com a ideia de que desempenho depende primordialmente da força de vontade individual. Esse jogo social pautado pelo cinismo é muito, muito cansativo.

E a felicidade com isso?

O significado de felicidade muda de acordo com a época. Atualmente perseguimos a felicidade como bem supremo, uma crença inabalável: “o homem nasceu para ser feliz”. Obviamente, nada contra a felicidade, mas na proporção em que a buscamos? É como a busca da terra prometida, do cálice sagrado, do pote no final do arco íris: perdido para sempre. Mas, paradoxalmente, praticamente todos os movimentos da humanidade têm como fim, a felicidade. Parafraseando Lipovetsky “será que o Homo felix é o instrumento da nossa maior infelicidade?”. Talvez não. Mesmo que não estivéssemos submetidos à tirania da felicidade, ainda assim, provaríamos uma boa dose de infelicidade ao nos frustrarmos e ao vermos quem amamos passando dificuldade.

Então, para que serve esse texto?

Um utilitarista poderia pensar “para nada!”. Outros, aqueles nos quais deposito minha esperança, poderiam pensar: “serve para pensar”. E se não refletirmos sobre o que significa felicidade, se não analisarmos aquilo que em essência nos deixa felizes, não encontraremos satisfação e alegria diante dos encontros fugazes com a felicidade. Mais do que isso, a cada insatisfação correremos para os novos objetos de consumo que trarão na bagagem uma dose certa de frustração, mas claro, com uma pitada de prazer e “conforto sem alegria”. E se repito alguns pontos em meus textos, é porque vivemos a repetição suicida de procurar algo novo na monotonia do hiperconsumo (hiperconsumo = adição desmedida de objetos, alimentos, sensações, experiências, vivenciais carnais ou espirituais, ou seja, todos nós, em algum grau, estamos reproduzindo o hiperconsumo).

Então a felicidade é paradoxal? Tem alguma saída?

Se somos paradoxais enquanto seres humanos, poderemos viver distante do paradoxo da felicidade? Provavelmente não. E para fazer justiça, um dos lados bons deste momento é também vivermos uma enorme possibilidade de mobilidade social e subjetiva. Já não pactuamos mais com o silêncio da opressão, apenas precisamos ter mais clareza do que é nosso desejo subjetivo ou se não passa de uma manipulação de vontade acoplada ao discurso reluzente e eterno: por um futuro feliz.

Márcia Tolotti

2 Comentários
  • Alexandro Ferreira
    Posted at 16:05h, 12 dezembro Responder

    Excelente Márcia. Pensar somente nos bens materiais, em adquirir, em ter é muito vazio. Precisamos cuidar também do nosso espírito, da nossa alma. O equilíbrio é um desafio hoje em dia, quando temos um mundo que nos bombardeia ligando felicidade com o ter. Forte abraço.

  • Rose Marchi
    Posted at 12:28h, 13 dezembro Responder

    Ótima reflexão! Penso que o inicio de todo entendimento sobre felicidade pessoal é o alto conhecimento, descobrir quem de fato somos é fundamental. A falta de conhecimento de quem se é, nos faz viver por comparações, imitações ou negações da nossa singularidade . Sem saber quem somos, ficaremos á mercê das classificações e juízos de valores alheios, e assim, tudo pode me ofender, agredir ou me diminuir. O primeiro passo em busca da “felicidade” na minha opinião, começa com esse questionamento, “Quem sou eu?”

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