Passageiros do Outono

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PROJETOS
Sobre este projeto

É a publicação da dissertação de mestrado de Márcia Tolotti que propôs um entrelaçamento entre a psicanálise, a literatura e a sociologia, tendo como pano de fundo o processo de envelhecimento.

O objetivo foi apresentar a velhice vinculada à dimensão da linguagem e da expressão cultural, enfatizando a forma como o velho é tratado pela sociedade e como ele reage ao processo de envelhecimento.

A proposta foi pensar na questão: o que é e como viver a velhice?

Para o imaginário social, envelhecer é um processo marcado pelo efeito corrosivo do tempo, que aprisiona o sujeito numa trajetória de perdas e limitações, que finda somente com a morte. Sendo assim, uma das tarefas centrais da velhice é elaborar uma redefinição e uma avaliação face às perdas que ocorrem em todos os domínios da vida, e engajar-se em novos papéis sociais e familiares. A edificação desse novo projeto, temporalmente tardio, mas psíquica, física e socialmente atual, não é uma tarefa valorizada, uma vez que a sociedade de consumo está voltada ao desempenho performático, padrão insustentável para um idoso. Inatividade, doença, lentidão, avaliação existencial soam como algo a ser banido, e a cultura cria a ilusão da possibilidade dessa exclusão. Condensar essa temática requer uma sobreposição teórica, ou seja, através dos usos lingüísticos e dos personagens literários, da teoria social de estigma e da teoria psicanalítica sobre estranhamento –unheimlich – viabiliza-se, em certo grau, a articulação e ampliação do entendimento sobre o envelhecer.

O envelhecimento não é um processo homogêneo, é preciso saber de que velho se está falando, qual a posição social que ocupa, qual é o seu papel dentro da estrutura familiar. Em âmbito nacional e mundial, o crescente aumento da população idosa é um fenômeno que vem despertando atenção, seja pelos problemas sociais que acarreta, seja pela premência da necessidade de reavaliação das relações familiares e trabalhistas, seja pelo avanço da medicina que possibilita o prolongamento temporal da vida. No entanto, pesquisas qualitativas e/ou quantitativas são escassas sobre esse tema, razão pela qual origina-se esta pesquisa, que tem como objetivo geral analisar a velhice vinculada ao conceito de estigma nas suas manifestações culturais e nos usos lingüísticos.

Enquanto objetivo específico, procura-se investigar de que forma a cultura influencia o modo de agir do idoso e com o idoso. Busca-se ainda examinar as contradições que tanto a sociedade tem em relação ao velho, quanto a ambigüidade que o próprio idoso vivencia a partir do seu envelhecimento. Objetiva-se, igualmente, analisar se o idoso aceita seu próprio envelhecimento e as formas que encontra para lidar com essa questão. Outro objetivo deste estudo é identificar como o idoso reage ao afastamento do mundo do trabalho, e quais são os recursos que utiliza para substituir a atividade laborativa. Finalmente, pretende-se investigar qual é a posição que o sujeito ocupa diante da possibilidade da morte e como lida com a questão do limite temporal que a vida aponta, nas suas formas brandas e nas formas mais radicais de comparecimento, seja do reconhecimento, seja da negação ou da transcendência.